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sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Como ensinar crianças do 1.º Ciclo a não darem erros


Maria Regina Rocha, uma das autoras do Programa e Metas Curriculares de Português do 1.º Ciclo, afirma que se os alunos dão erros então é necessário identificar as causas, explicar regras, fazer exercícios. As crianças que aprendem a escrever devem visualizar e ouvir as palavras. “Eu não dou erros!” é um livro que responde a muitas dúvidas.

A ortografia é um tema de todos os dias. Nos primeiros contactos formais com as palavras, os alunos do 1.º Ciclo do Ensino Básico podem ter dúvidas. Há sons que podem ser escritos com letras diferentes, há palavras que soam de igual forma e que não se escrevem da mesma maneira. “É natural que haja dúvidas porque o sistema é complexo”, diz Maria Regina Rocha, uma das autoras do Programa e Metas Curriculares de Português do 1.º Ciclo, coautora do livro “Eu não dou erros!” com Maria Helena Marques. Um livro para professores, alunos e todos os que querem sentir-se seguros na ortografia. 

A escrita foi evoluindo ao longo dos tempos, não é um código de transcrição exata, e quando uma criança se apercebe que um som pode ser grafado com diferentes letras, surgem dúvidas e os erros podem acontecer. A ortografia é a forma correta de escrever as palavras e é um assunto sério tanto mais no 1.º Ciclo, no primeiro contacto com letras, palavras, frases. Neste nível de ensino, o mais importante é ensinar as regras, as exceções são explicadas mais tarde. “A criança do 1.º Ciclo tem de dominar a regra”, afirma a professora, licenciada em Filologia Românica e mestre em Ciências da Educação, autora de vários livros. 

Há várias formas de adquirir o domínio da ortografia. Desde logo, os contextos e as práticas sociais de linguagem são importantes para aprender a escrever corretamente. O que os adultos dizem, como falam, como escrevem, funciona como exemplos para os mais pequenos. “A palavra correta é indicada à criança em contextos informais, normalmente por adultos”, lembra a autora do livro. E a leitura é fundamental. Ler é uma forma de ganhar bases sólidas para uma escrita correta. Ler com frequência e atenção, ler textos cada vez mais complexos. Escrever textos também é importante. “A produção regular de textos e a respetiva revisão levam à automatização da escrita”, sublinha Maria Regina Rocha.    

Consultar dicionários e prontuários desde idades precoces dá segurança a quem escreve e ajuda a dominar a ortografia. Também é preciso compreender as convenções ortográficas, a origem da palavra, tal como entender que há situações em que a relação entre a letra e o som se processa de maneira irregular. “Letras pronunciadas de forma parecida podem confundir as crianças que estão a aprender a escrever”, avisa. 

Se os erros acontecem então é necessário identificar as causas. Maria Regina Rocha refere que é preciso compreender as razões por que isso acontece: se decorre de uma oralização incorreta, se há confusão entre as diversas grafias de um mesmo som, se há dificuldade na delimitação das palavras, se é recorrente o uso incorreto de determinadas letras, se o erro acontece por dificuldades de natureza morfológica ou sintática, se é a acentuação que está a criar problemas. 

Caixinha da ortografia 
Causas detetadas, insiste-se na forma correta da palavra, na regra, fazem-se exercícios para a sua interiorização. “Dar erros não é fatal”, comenta. Mas é preciso atenção. O contacto com o modelo correto é essencial porque a aquisição de competências na ortografia também se processa pela visualização de palavras. Conhecer as regras, compreendê-las, interiorizar as convenções ortográficas, por exemplo, quando se escreve “e” com o som de “i”, que entre vogais o som “z” escreve-se normalmente com “s”. Tudo é importante para não dar erros. 

Quando se ensina uma palavra nova, o professor pode escrevê-la em letras garrafais numa cartolina ou no quadro. É importante que os alunos a visualizem e ouçam o seu som. Maria Regina Rocha dá mais conselhos. “De dois em dois dias, coloquem na parede da sala uma palavra nova com previsível dificuldade de natureza ortográfica, expliquem o seu significado, escrevam uma frase com essa palavra.” 

Os professores devem fazer uma lista ordenada com os graus de dificuldade dos alunos, explicar uma regra por semana e insistir nela, fornecer às crianças um grande número de palavras, elaborar exercícios para sublinhar palavras - como, por exemplo, enumerar quatro palavras com o mesmo grau de dificuldade, procurar no dicionário e elaborar uma frase com cada uma delas. Ou ainda procurar rimas no dicionário, por exemplo, cinco verbos terminados em “izar” e construir frases.  

Criar uma caixinha da ortografia e colocá-la na sala de aula é uma atividade que pode captar a atenção e eliminar erros nos cadernos. É mais uma sugestão da professora. Uma caixinha com várias palavras, um aluno tira um papel com uma palavra, o professor dita a palavra e se alguém errar, a palavra volta para a caixinha. O objetivo é que a caixa fique vazia. Caixa sem palavras, zero erros nos cadernos. 

Fazer uma lista de erros de cada aluno dá trabalho, mas pode ser bastante útil nesta tarefa de ensinar a escrever. Fazer essa lista e entregá-la aos pais ajuda a remar para o mesmo lado, a congregar esforços. Depois disso, a atuação pode ser cirúrgica, o professor pode elaborar uma bateria de exercícios apenas com essas incorreções e pedir aos alunos que os resolvam.

“Eu não dou erros!” é um livro que ensina regras de ortografia de uma forma clara, apresenta variados exercícios que abrangem muitos assuntos, e que dá resposta à generalidade das dúvidas de ortografia. Como utilizar o “m” e o “n” no final de uma sílaba, quando se usa o “x” e quando é “ch”, o “am” do passado e o “ão” do futuro, o til, a acentuação, são alguns dos assuntos pormenorizados nesta publicação recentemente editada pela Porto Editora e assinada por Maria Regina Rocha e Maria Helena Marques.  

Informação retirada daqui

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Não são manuais escolares, são livros de entretenimento


Conselho editorial da Porto Editora garante que não há “qualquer discriminação” nos livros de atividades para meninos e meninas e volta a colocá-los à venda. Editora refere que fez uma “análise serena e ponderada do caso”, assegura que não há “matéria objetiva e relevante” para retirar livros dos pontos de venda, e refuta várias observações feitas pela Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género.

Os blocos de atividades para meninos e meninas dos 4 aos 6 anos de idade, que tanta polémica e debates causaram no último mês, voltam a estar à venda. A Porto Editora (PE) chegou a suspender a venda desses livros após críticas de discriminação feitas pela Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG). A editora e a CIG reuniram-se entretanto e anunciaram que vão trabalhar em conjunto na produção de materiais destinados a crianças. O conselho editorial da empresa livreira esteve a analisar o caso e resolveu voltar a colocar os livros no mercado para compra livre. 

Segundo a editora, não há motivos para a retirada definitiva desses livros. “(…) tendo-se concretizado os objetivos pretendidos, e comprovada a não existência de qualquer discriminação, põe-se fim à suspensão da venda daqueles livros no quadro do exercício pleno da liberdade de expressão da autora e das ilustradoras, bem como da liberdade de edição, respeitando estes valores fundamentais”, sustenta a PE em nota da Direção Editorial. 

A empresa adianta que a suspensão da venda deveu-se à vontade de fazer “uma análise serena e ponderada do caso, sem ceder às pressões e avaliações imediatistas e precipitadas, e como forma de denunciar a lamentável manipulação que esteve na origem da polémica”. Debruçou-se então sobre o parecer técnico da CIG, que, entre outras coisas, referia que os livros promoviam a discriminação e diferenciação entre homens e mulheres, e refuta várias observações desse documento.  
  
“A Porto Editora tem plena consciência da sua missão e da sua responsabilidade na promoção do desenvolvimento educacional, cultural e civilizacional. Um compromisso que honra diariamente, procurando fazer sempre mais e melhor nas diferentes áreas editoriais em que atua e, dessa forma, satisfazer a pluralidade de gostos, interesses e necessidades das suas leitoras e dos seus leitores”, lê-se na nota da Direção Editorial. 

Os blocos de atividades, com capa azul para meninos e capa cor-de-rosa para meninas, com vários exercícios para crianças dos 4 aos 6 anos, estiveram no centro das atenções no último mês. A editora e a CIG reuniram-se, acertaram uma estreita colaboração, e anunciaram um trabalho conjunto na promoção de “conteúdos que fomentem uma educação promotora de igualdade de oportunidades e do desenvolvimento das diferentes capacidades e talentos de todas as crianças, contribuindo assim para a construção de uma sociedade em que mulheres e homens exercem uma cidadania plena”. 

Bolas para meninas, peluches para meninos 
A PE leu com atenção o parecer técnico da CIG, agradece o trabalho realizado, mas considera que não há “matéria objetiva e relevante que justifique” a recomendação de retirar os livros dos pontos de venda. “As liberdades artística e criativa da autora, ilustradoras e editora não podem ser condicionadas por questões de gosto, no mínimo, subjetivas e discutíveis”, conclui. A editora refuta comentários feitos pela CIG e esclarece que os blocos de atividade não são manuais escolares ou de apoio à escola, nem tão-pouco fazem parte de um programa letivo e, por isso, na sua opinião, “é errada qualquer associação destas edições ao contexto da escola”. 

“Ao contrário dos manuais escolares, estes blocos têm uma função diferente, implicam um contacto superficial com as crianças, assumindo um papel de entretenimento, repleto de ludicidade, ainda que explorando competências importantes para a faixa etária a que se destinam. Por isso, parece-nos muito exagerado considerar que a realização deste tipo de blocos de atividades de alguma forma condicione, no futuro, as opções pessoais e profissionais das crianças”, refere a PE no relatório que elaborou.

Os blocos de atividades são livros que têm folhas destacáveis para fins lúdicos e ocupação de tempos livres. Nos dois em questão, o conceito assentou, segundo a editora, “na elaboração de dois blocos de atividades lúdicas com o mesmo conteúdo em termos de competências a abordar, com a mesma tipologia de exercícios e grau de complexidade”. 

“Na forma, um dos blocos deveria ser mais destinado aos rapazes/meninos, contendo elementos gráficos e situações próximos dos seus gostos e preferências mais comuns e o outro, mais ao agrado da maioria das meninas/raparigas. Para tal, cada livro foi entregue a uma ilustradora diferente que livremente desempenhou um trabalho criativo e artístico. Não se conhecem, nem viram o trabalho uma da outra”, adianta a PE. 

Os conteúdos foram concebidos por uma educadora de infância, a execução foi acompanhada por uma coordenadora editorial, a parte gráfica ficou a cargo de uma designer e duas ilustradoras. A empresa livreira assegura que estas mulheres não tiveram como objetivos reforçar a segregação de género ou diferenciar o grau de dificuldade das atividades. Além disso, explica, a seleção das cores e dos elementos gráficos das capas obedeceu a “critérios estéticos e comerciais e à liberdade criativa das ilustradoras”. 

Há bolas no bloco das meninas e peluches no dos meninos e numa das atividades tanto a menina como o menino arrumam os seus quartos. “A maior parte das atividades dos blocos atribui gostos comuns a meninas e rapazes: contacto com a Natureza, animais domésticos e selvagens; atividades extracurriculares; tempo livre com os avós; livros; doces; atividades culturais e desportivas; convívio com os amigos; colecionismo”, exemplifica. 

“Importa esclarecer também que estas obras não foram desenvolvidas sob uma perspetiva comparativa, pelo que consideramos despropositada e desadequada essa abordagem que surgiu nas redes sociais e que, em grande medida, serviu de fundamento ao parecer da CIG”. A PE justifica os blocos de atividades com uma opção editorial e lembra que a compra é livre. “A igualdade de oportunidades não está comprometida, porque todos podem ter acesso à obra que entenderem”. 

A empresa livreira, líder no setor, sublinha que o rigor, a responsabilidade, a proximidade, a excelência e a inovação são valores com que trabalha diariamente e que todas as publicações para crianças “obedecem a grandes cuidados editoriais, congregando o esforço de uma equipa vasta e especializada, incluindo editores, autores, consultores, ilustradores, designers, etc., com profundo conhecimento da área”. E no início do relatório recorda o que diz a Constituição Portuguesa sobre os direitos da liberdade de expressão. 

Informação retirada daqui 

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Programas para ensinar competências emocionais ajudam a resolver problemas nas escolas


Especialistas em inteligência emocional, uma área da Psicologia, garantem que ensinar os alunos a conhecerem e a regularem as suas emoções é a melhor forma de potenciar resultados escolares e resolver problemas de indisciplina.

Trata-se da nossa capacidade para perceber, expressar e compreender e regular as emoções. A sociedade está mais ciente do potencial da inteligência emocional (IE). “Quando há 25 anos a IE se popularizou era um novo ideário, agora há imensa pesquisa que a suporta como um conceito bem estabelecido na área da psicologia”, explica John Pellitteri, presidente da Sociedade Internacional de Inteligência Emocional (ISEI, na sigla inglesa). Não é de estranhar, por isso, o aumento do número de programas de aprendizagem na área da inteligência social e emocional. 

Como o célebre programa desenvolvido por Marc Brackett, diretor do Centro de Inteligência Emocional de Yale e professor no Centro de Estudos da Criança de Yale, o “Ruler” foi adotado em quase mil escolas públicas e privadas nos EUA, Austrália, Inglaterra, Itália, México e Espanha. É aqui no país vizinho, mais precisamente na região da Andaluzia, que Rosário Cabello, psicóloga, e Pablo Fernández-Berrocal, diretor do Laboratório das Emoções, ambos professores na Universidade de Málaga, estão a aplicar um outro programa designado por “Intemo+”, já testado em dois mil adolescentes espanhóis. 

“Há uma grande necessidade a ser preenchida com a IE nas escolas”, constata John Pellitteri. Mas “para ter professores e diretores de escolas envolvidos nestas questões é preciso mudar o seu estado de espírito”, alerta. “Têm de perceber que as emoções são importantes e não podem ser ignoradas. Só depois se pode começar a pensar em incorporar estes programas nas nossas escolas.” 

Por onde começar? “Não basta ensinar algumas competências do mesmo modo que ensinamos numa aula de História ou Matemática. Tem de haver um compromisso de toda a escola em colocar o foco nas emoções”, explica Marc Brackett. Razão pela qual o “Ruler” tem uma abordagem sistémica. “É preciso mudar todo o sistema da escola. É a melhor maneira de desenvolver as competências emocionais e atingir melhores resultados, melhores relações e menos problemas disciplinares.” 

A Sociedade Internacional de Inteligência Emocional (ISEI) reuniu-se em congresso no Porto, durante quatro dias. Foi o sexto encontro, desde que Pablo Fernández-Berrocal organizou, em 2007, o primeiro, na cidade de Málaga. A ISEI tem representação em Portugal, através da diretora regional Luísa Faria, professora na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto onde se realizou este encontro. 

O presidente da ISEI deu por si a enumerar, um a um, os 42 países representados no Congresso de Inteligência Emocional deste ano. Da Argentina, passando pela Índia, Jamaica aos EUA. “É muito fácil perceber porque necessitamos da IE na sociedade”, explicava ao Observador: “Se olharmos para a economia, condições sociais de vida das pessoas, todos os conflitos no mundo, genocídios, guerras, conflitos internacionais, há tantas áreas onde não existem apenas emoções negativas, mas também uma regulação pobre de emoções.” 

Rosário Cabello, psicóloga, pertence à equipa que durante três anos aplicou o programa Intemo+ a dois mil alunos, com idades entre os 12 e os 17 anos, na Andaluzia. Os resultados mostraram a eficácia do programa na resolução de problemas com o uso de drogas ou a indisciplina. Bastou uma hora por semana e um protocolo rígido. Começava com o resumo da sessão anterior. Seguia-se a introdução da habilidade a desenvolver. Por exemplo, a perceção da emoção – uma das quatro ramificações da IE, que incluiu ainda a facilitação, a compreensão e a regulação. Depois, exercícios em que os jovens trabalhavam a conexão da habilidade com a vida real. E, no final, a recapitulação da sessão numa frase-chave. 

Após seis meses do fim do programa, uma avaliação comprovava aos investigadores, que os resultados obtidos não só se mantinham como aumentavam. O que tinha acontecido? “Os alunos tinham assimilado os conteúdos das sessões e estavam a por em prática o que tinham aprendido”, diz Cabello, com a dose merecida de entusiasmo: “Conseguimos promover a saúde mental destes alunos!” 

O que aprenderam estes adolescentes nesta viagem pelas emoções? O “Intemo+” tem uma atividade que ensinou os alunos a reconhecerem as expressões faciais de cada emoção básica. Elas são sete: medo, tristeza, felicidade, surpresa, nojo, raiva e desprezo. É importante conseguir identificá-las nos rostos daqueles com quem interagimos. Usam-se fotografias de pessoas reais, retiradas, por exemplo de filmes. Se o programa for aplicado a crianças as imagens terão de ser adaptadas. Há quem defenda o uso de rostos de desenhos animados. Outros alegam que assim é mais difícil fazer os mais pequenos percecionar as expressões reais. 

Compreender a utilidade das emoções e o seu significado são as etapas seguintes. Qual o estado mais adequado para fazer a revisão final de um trabalho para entregar na escola? A euforia não será, com certeza. A depressão faz-nos ver tudo negativo, num grau “mais leve” ajudará a detetar os erros. Como o aluno se deveria sentir para fazer melhor um exame? Tristeza, talvez não. Mas um pouco de tensão certamente evitará alguma distração. Com estas interrogações, Cabello reitera que “saber como usar a emoção é um aspeto muito importante na facilitação emocional”. 

Imagine-se, agora, um outro cenário. Um aluno estudioso recebe uma nota negativa. Que emoção deve sentir? Definitivamente, surpresa. No entanto, esse mesmo aluno é capaz de ir ter com o professor e em vez de se expressar surpreso, mostrar-se furioso. O que despoletará no docente uma reação de defesa e afastamento. 

Voltando atrás. Se o mesmo aluno for capaz de chegar junto do professor e manifestar surpresa, a situação terá um desfecho mais positivo. Porventura, resultado da IE do aluno. Veja-se o quadro completo, segundo Rosário Cabello: “A priori não se justifica que o aluno se aborreça perante a nota negativa. Depois de ver o teste com o professor, a posteriori, talvez tenha motivos para se aborrecer, por exemplo, se perceber que cometeu erros que não devia ou se verificar que o erro foi do professor.” 

Apesar dos resultados, a equipa do Laboratório das Emoções da Universidade de Málaga continua a encontrar resistência nas escolas para intervir. Percebe-se porquê? “Os professores, os diretores e as escolas têm muito trabalho”, constata Cabello. Tanto em Espanha como em Portugal, as escolas são chamadas a atuar em várias frentes. Seja na prevenção do uso de drogas ou da violência na abordagem à sexualidade ou na promoção de bons hábitos alimentares. Tudo cabe dentro das paredes escolares. A IE também quer ganhar o seu espaço. 

Perguntamos se um programa de IE poderia ser a chave para a resolução de muitos destes problemas? “Sim, claro!”, responde Rosário Cabello. “Melhorando a IE podemos também diminuir o consumo de drogas, os comportamentos agressivos, o distúrbios alimentares, porque na base de muitos dos problemas que se geram na adolescência está uma desordem emocional.” Mostrar isso às escolas tem sido o maior desafio para quem trabalha nesta área. 

Desafios não faltam a Marc Brackett, diretor do Centro de Inteligência Emocional, professor no Centro de Estudos da Criança de Yale. Publicou mais de 100 artigos académicos sobre IE e as suas pesquisas têm sido bastante premiadas. Numa dessas pesquisas, Brackett inquiriu estudantes de Yale, professores do ensino público e privado espalhados pelos EUA, funcionários de 50 empresas americanas e centenas de crianças, sobre como se sentiam. As respostas pouco variaram, todos se sentiam cansados, stressados e sobrecarregados, indicando, segundo Brackett, “um mau sinal para o futuro”. 

“Com sentimentos constantes de stress, cansaço e aborrecimento, o cérebro não consegue gerar novas ideias ou ser criativo”, explica Brackett. Além disso, “a maneira como nos sentimos influencia a nossa tomada de decisões. A emoção também conduz a nossa qualidade relacional. O aborrecimento na cara de um entrevistado para um emprego não gera no empregador a vontade de o contratar”. 

Todos sabemos que existem dois tipos de stress, um é bom, o outro mau. Quando Brackett conduziu entrevistas intensivas no grupo de estudantes de Yale verificou que o stress que os afetava era do pior tipo. Os estudantes tinham a perceção de ter feito um grande esforço para entrar naquela prestigiada instituição. No entanto, sentiam que não pertenciam ali. 

Quando os investigadores perguntaram, em alternativa, como se queriam sentir? A resposta surpreendeu. Talvez porque seria de esperar que se quisessem sentir entusiasmados, com energia, alegres. Mas não. Queriam sentir-se amados. “Essa necessidade tem a ver com um sentimento de solidão. Os estudantes sentem-se um produto da educação recebida dos pais, das escolas e chegam à universidade sem identidade”, explica o psicólogo e professor. 

Olhando para os inquéritos realizados às crianças, Brackett explica que os seus níveis de stress são superiores aos dos adultos. E conta a história de uma professora que lhe pedia ajuda com um menino de 12 anos. O rapaz confessava-se preocupado por todos os seus colegas estarem stressados e ele não. 

Como fechar o fosso emocional? É a mesma velha questão de sempre, explica Brackett. “Quando tentamos introduzir a IE num ambiente, a emoção tem de ser valorizada. Mas em muitos contextos a emoção ainda é vista como uma coisa má. Se a cultura de uma escola torna os alunos e os professores cansados e aborrecidos, tentar falar de IE é difícil”, conclui. 

Os mais céticos talvez ainda se interroguem sobre o que fazer com todos os sentimentos? “Podemos usar pensamentos e ações para prevenir, reduzir, iniciar emoções para promover o crescimento pessoal, construir relações, atingir metas e maior bem-estar”. A isto chama-se regular ou gerir emoções e é o que Brackett ensina através do “Ruler” que “não é apenas um programa de IE, mas um modo de colocar a IE no sistema imunitário de qualquer organização”. Essa organização pode ser a escola. 

“É subestimado o quanto as pessoas precisam destas competências emocionais e da regulação emocional.” A quem nunca ouviu falar em IE, Brackett tranquiliza: “A IE é um conjunto de competências, estão localizadas no nosso cérebro, e nunca é cedo ou tarde de mais para as aprender e desenvolver.” E acrescenta: “Promover a IE pode ajudar a construir um mundo onde as pessoas são mais felizes e saudáveis.” Em relação aos mais novos: “Fazer com que as crianças se sintam confortáveis ao experimentarem todas as emoções.” Pablo Fernández-Berrocal, fundador do Lab Emotion na Universidade de Málaga, Espanha, psicólogo desenvolve, programas de inteligência emocional em vários ambientes, escolas e empresas, assegura que “a regulação emocional não é fácil, mas que a inteligência emocional ajuda a evitar erros estúpidos”. Mas está sobretudo preocupado com o impacto da regulação emocional das crianças na sua vida futura. Citando um estudo realizado na Nova Zelândia, em mil crianças seguidas durante 30 anos, o investigador explicou como menos regulação emocional, se relaciona com uma saúde pior, menores rendimentos e mais participações em crimes. 

A necessidade de levar a IE para dentro das escolas seria confirmada pelos resultados sobre o bem-estar dos alunos, avaliados pelo PISA 2015, que mostravam que 19% dos estudantes da OCDE reportavam terem sido vítimas de bullying várias vezes no último mês, mais de 50% sentia-se ansioso, mesmo quando estavam bem preparados para os exames. “Estes alunos pontuam menos a Ciências e estão mais insatisfeitos”, lembra Berrocal. Brackett concorda: “Depois destes resultados é preciso incluir a IE nas escolas assim que possível”. Em Espanha, Berrocal e a equipa do Lab Emotion estão a fazer isso. 

Em Portugal, as experiências de programas de promoção de competências socio-emocionais em ambientes educativos acontecem em intervenções realizadas por académicos, investigadores e estudantes de mestrado e doutoramento. Existem, alguns, adianta Luísa Faria, coordenadora regional para a Europa da ISEI e professora na área da psicologia. São “programas desenhados para alunos do pré-escolar, do primeiro ciclo e para adolescentes e que permitem treinar as emoções, a regulação, a expressão a perceção emocional e que apresentam várias situações fictícias e reais do quotidiano que os alunos discutem e sobre as quais tomam posições”. 

Mas há muito espaço para a educação socio emocional nas escolas portuguesas. Um programa ao nível nacional “ajudaria muito”, garante Luísa Faria acrescentando que “a evidência científica da psicologia tem demonstrado que a inteligência emocional é fundamental para que as pessoas possam ser mais felizes, produtivas, integradas e capazes de transformar os seus contextos de vida”. 

E este é um aspeto particularmente importante, tendo em conta a instabilidade da vida da maioria dos jovens, diz Luísa Faria. “Hoje em dia os jovens saem das faculdades e não sabem bem o que os espera do ponto de vista profissional, têm de criar os seus próprios empregos e ter um conjunto de habilidades, não apenas cognitivas, mas cognitivo-sociais e cognitivo-emocionais. É fundamental para poderem construir percursos de vida mais saudáveis.”

Informação retirada daqui

sábado, 9 de agosto de 2014

Estudar é caro mas a qualificação é um bem de primeira necessidade

No início do ano, a divulgação de um estudo patrocinado pela Comissão Europeia realizado em oito países da Europa revelava, sem surpresa, que Portugal apresenta uma das mais altas percentagens, 38%, de jovens que gostavam de prosseguir estudos mas não têm meios para pagá-los.

É também preocupante que apenas 56% dos estudantes que realizaram os últimos exames nacionais do secundário revelassem a intenção de continuar estudos no ensino superior. O número tem vindo a baixar ao longo dos últimos anos, sendo que as dificuldades económicas das famílias ou dos próprios parecem ser a principal razão.

Os dados disponíveis sustentam este entendimento mas, do meu ponto de vista, há ainda que considerar os eventuais efeitos de um discurso recorrentemente difundido de que, dada a enorme taxa de desemprego entre os jovens com qualificação superior, o investimento nessa qualificação não compensa pois não existe mercado de trabalho, alguns empregos que surgem são precários e mal pagos e muita gente qualificada está a ser empurrada para fora por falta de futuro em Portugal.

É também de recordar que, de acordo com o relatório da OCDE Education at a Glance 2013, Portugal é um dos países europeus em que a frequência de ensino superior mais depende do financiamento das famílias — cerca de 31% dos gastos de universidades e politécnicos. A média da OCDE é 32% e a da União Europeia, 23,6%.

Esta informação não é nova. Na verdade, e como é do conhecimento das pessoas mais perto deste universo, o ensino superior em Portugal, contrariamente ao que muitos afirmam de forma leviana, tem um dos mais altos custos de propinas da Europa. Conforme dados de 2011/2012 da rede Eurydice, Portugal tem o 10.º valor mais alto de propinas na Europa, mas, se se considerarem as excepções criadas em cada país, tem, efectivamente, o terceiro custo mais alto no valor das propinas.

Em 2012 foi divulgado um estudo realizado pelo Instituto de Educação da Universidade de Lisboa que também contribui para desmontar um equívoco que creio instalado na sociedade portuguesa. Comparativamente a muitos outros países da Europa, Portugal tem um dos mais altos custos para as famílias para um filho a estudar no ensino superior, ou seja, as famílias portuguesas fazem um esforço bem maior, em termos de orçamento familiar, para que os seus filhos acedam a formação superior. Se considerarmos a frequência de ensino superior particular, o esforço é ainda maior. Percebe-se, assim, a taxa altíssima de jovens que exprimem a dificuldade de prosseguir estudos ou se sentem mesmo obrigados a desistir, situação regularmente referenciada.

Estas dificuldades pelas quais passam muitos estudantes do ensino superior e respectivas famílias, quer no sistema público, quer no sistema privado, são, do meu ponto de vista, consideradas frequentemente de forma ligeira ou mesmo desvalorizadas. Tal entendimento parece assentar na ideia de que a formação de nível superior é um luxo, um bem supérfluo, pelo que... quem não tem dinheiro não tem vícios.

Neste quadro, os constrangimentos em matéria de bolsas e apoios, as dificuldades enormes que muitas famílias atravessam e o desemprego mais elevado entre os jovens, que poderia constituir uma pressão para continuar os estudos, as elevadas propinas, designadamente no 2.º ciclo, tornam ainda mais difícil a realização de percursos escolares que promovam mobilidade social, levando ao aumento das desistências.

Considerando, tal como o relatório da OCDE refere, o ainda baixo nível de qualificação da população portuguesa, o número de licenciados está bem abaixo da média europeia e, quando se sabe que a minimização das assimetrias depende, também, da educação e qualificação, o preço destes processos e as dificuldades actuais, longe de combater essas assimetrias, alimenta-as.

É importante salientar que Portugal é um dos países em que a qualificação de nível superior é mais compensadora no que respeita ao estatuto salarial. Segundo o relatório da OCDE Education at a Glance 2012, a diferença salarial de jovens com licenciatura para jovens com formação a nível do secundário é de 69%.

Não esqueço o altíssimo e inaceitável nível de desemprego entre os jovens, em particular entre os jovens com qualificação superior, mas esta situação não decorre da sua condição de licenciados mas do baixo nível de desenvolvimento do nosso mercado de trabalho, de circunstâncias conjunturais e de erradas políticas de emprego.

Neste cenário, o discurso muitas vezes produzido no sentido de que "não adianta estudar" não colhe e não tem sustentação, sendo um autêntico tiro no pé de uma sociedade pouco qualificada como a nossa que, efectivamente, continua, em termos europeus, com uma das mais baixas taxas de qualificação superior em todos os grupos etários, incluindo os mais jovens.

Portugal, no âmbito da estratégia europeia Europe 2020 Strategy for Growth and Employment in Europe, assumiu o compromisso de atingir em 2020 a taxa de 40% de licenciados na população entre os 30 e os 34 anos. Em 2013 conseguimos chegar aos 29%, um progresso significativo mas insuficiente e ameaçado. Este cenário retira sustentação à popular ideia de "que somos um país de doutores", tão perigosa quanto falsa.

Conseguir níveis de qualificação compensa sempre e é imprescindível. Estudar e conseguir qualificação de nível superior compensa ainda mais, é um bem de primeira necessidade.

O que acontece verdadeiramente, repito, é termos desenvolvimento a menos, não é qualificação a mais, é termos um mercado de trabalho que a cegueira da austeridade e do empobrecimento tem vindo a proletarizar e precarizar, não estando a absorver, como seria necessário, a mão-de-obra qualificada.

Não podemos passar a mensagem de que a qualificação não é uma mais-valia. É um discurso que nos ameaça o futuro.

Noticia retirada daqui

sábado, 19 de julho de 2014

Voltamos à moralidade ou à falta dela

Não é para melhorar as escolas, é para mostrar quem manda. O resultado é que, se houver sarilhos, é porque andaram a pedi-los.

Voltar a falar de moralidade é algo que só faço com imensa relutância. A palavra e a coisa são tão ambíguas e prestam-se a tantas manipulações, que a probabilidade de sair asneira ao usá-la é grande. Por regra, entre o moralismo hipócrita, tão comum no mundo católico apostólico romano, e o cinismo, eu acho que o cinismo faz menos estragos em democracia.

O ponto de vista realista, ou, se se quiser, cínico, pode ser pedagógico em política, quando esta está cheia de falsos moralismos, densa de presunção moral. Já houve alturas em que foi assim e ocasionalmente, nalguns momentos e eventos, é assim. Nessas alturas faz bem lembrar que a natureza humana é como é, e pode-se ser um carácter duvidoso a título pessoal e ser-se um bom político, que sirva a comunidade e o bem comum. Churchill serve de exemplo, ou Lincoln. Parece chocante, mas a moralidade pessoal é um terreno pantanoso em que é mais fácil entrar do que sair e o julgamento da moralidade alheia, quase sempre hipócrita, tem a notável tendência de funcionar como boomerang. É por isso que só com pinças.

Mas no tempo em que vivemos não é o moralismo o risco, dada a natureza dos nossos governantes que cresceram numa cultura amoral e de “eficácia”. Por isso é preciso o contrário, chamar a moralidade para a praça pública, porque há coisas que são inaceitáveis numa democracia que desejamos minimamente decente. Já não digo sequer decente, mas minimamente decente. E têm a ver com a moral porque atingem a verdade, a recta intenção, o objectivo do bem comum, o respeito pela dignidade das pessoas e são actos de maldade, de mau carácter, muitas vezes disfarçados de espertezas e habilidades.

O exercício desta imoralidade activa na governação impregna toda a vida pública de maus exemplos, de salve-se quem puder, de apatia ou revolta, de depressão ou violência. Torna Portugal um país doente e um país pior, promove os habilidosos sem escrúpulos e afronta os homens comuns, insisto, minimamente decentes, que não querem o mal para ninguém, desde que os deixem sossegados e sem afronta. É isso que provoca a institucionalização do dolo, do engano, a construção de políticas destinadas a tramar portugueses, umas vezes muitos e outras vezes poucos, sem qualquer vergonha por parte dos seus executantes. E aí eu nasço redivivo como um moralista agressivo, e falo cem vezes do mesmo, sem descanso. Não gosto, mas falo.

A história mais recente e que me fez escrever este artigo foi a desfaçatez do truque que o Ministério da Educação usou para marcar os exames aos professores com três dias úteis de pré-aviso, caindo do céu da surpresa no fim de Julho, com grande estrondo. Na verdade, são teoricamente cinco dias, o mínimo exigido por lei, mas só teoricamente. O truque foi pré-assinar um despacho em segredo, no quinto dia divulgá-lo no Diário da República a contar do dia da sua assinatura, para que na prática faltassem, após o anúncio ser conhecido, apenas três dias úteis até ao exame, 17, 18, e 21 de Julho. Professores que já estavam a receber o subsídio de desemprego, que já estavam de férias, e que não sabiam que iam ter um exame para que é suposto prepararem-se, cai-lhes em cima uma data que é já praticamente amanhã. Nem o gado é suposto ser tratado assim, mesmo quando vai para o abate.

Porquê esta rapidez? A resposta é muito simples: para evitar que os sindicatos pudessem apresentar um pré-aviso de greve no prazo exigido pela lei – ou seja, o Governo faz um truque descarado e sem vergonha para contornar uma lei da República, que permite o exercício de um direito.

Pode-se ter o ponto de vista que se quiser sobre os exames exigidos a professores que já tinham as qualificações necessárias para ensinar e, nalguns casos, já ensinavam há vários anos. Esta é outra questão e sobre ela não me pronuncio. O Governo pode até ter razão em querer os exames e os professores não ter ao recusá-los. Aqui posso ser agnóstico sobre essa matéria. Não é sobre isto que escrevo, mas sobre o pequeno truque, habilidade, esperteza e os seus efeitos de dissolução social como norma de governação.

Vai haver quem encolha os ombros e ache muito bem que se pregue uma partida a Mário Nogueira e aos seus sindicalistas da Fenprof. (No entanto, todos os sindicato, mesmo os da UGT, dirigidos por membros e simpatizantes do PSD, estão de acordo em recusar o truque do Governo.) Mas, como a sociedade portuguesa está em modo de “luta de classes”, há aí muita gente agressiva a querer vingança no tempo útil que sobra até o Governo cair. A mó já é a mó de baixo e daí muita raiva pouco contida, que serve de base à indecência.

Sim, porque o que é inaceitável neste acto é que o Governo apresente face aos cidadãos um Estado cuja face é o logro e a habilidade grosseira, sem se preocupar um átomo em humilhar as pessoas, poucas que sejam, que precisam de um emprego, numa altura em que ele escasseia. É isto que é a maldade social. Não é que seja obrigatório fazer um exame, que é uma medida de política que pode ser contestada legalmente, inclusive pela greve.

O objectivo principal, sabemos nós, é impedir a greve, o que já é em si mesmo grave. Mas, para isso, usa-se discricionariamente as pessoas, atirando-as a seu bel-prazer de um lado para o outro, sem qualquer vantagem social, profissional, pedagógica. O Governo, mais do que testar os conhecimentos dos professores, o que já abandonou pelo caminho, quer discipliná-los, obrigando-os a obedecer, para poder mostrar autoridade. E, como podiam ter a vontade de fazer greve, tira-lhes essa possibilidade legal com um truque.

Não é para melhorar as escolas, é para mostrar quem manda. O resultado é que, se houver sarilhos, é porque andaram a pedi-los. Ao tratar-se as pessoas como cães, não admira que elas possam vir a morder.

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Destruir, diz ele

Ao marcar a prova de avaliação de conhecimentos dos professores com cinco dias de antecedência, o Ministério da Educação comportou-se como um velho salteador de estradas. O salteador, conhecendo os caminhos que os transeuntes incautamente atravessavam, atacava-os de surpresa para lhes extorquir bens, às vezes a própria vida. O Ministério, jogando também no segredo, apanha desprevenidos os sindicatos e retira-lhes a possibilidade de recurso à greve.

Creio estar à vontade nesta questão. Defendo a realização de uma prova de acesso à profissão docente, que me parece indispensável para, entre outras coisas, repor alguma equidade entre candidatos que se formaram e foram classificados em condições muito díspares Critico também regularmente o uso destemperado de todos os instrumentos imagináveis por parte da Fenprof para contestar qualquer medida.

Mas impressiona-me que o Ministério da Educação recorra a expedientes tão rasteiros e desrespeite tanto as escolas e respetivas direções. E não me impressiona menos o desprezo que assim mostra devotar à prova que quer aparentemente promover. Já a edição de dezembro passado tinha escandalizado a opinião pública pelo seu enunciado ridículo. Agora, a marcação com o intervalo de três dias úteis, como se ela não implicasse outra preparação aos candidatos que não apontar o local e hora de comparência, é um golpe final na sua credibilidade.

É mais um feito a acrescentar à longa lista que Nuno Crato apresenta, em matéria de destruição do que encontrou estruturado. Adaptando-lhe o título de uma conhecida obra de Marguerite Duras (e sem ofensa para esta grande escritora), o que ele diz é apenas "destruir".

O ministro da Educação só tem uma ideia para o setor. Realizando exames com efeitos eliminatórios no fim de cada ciclo de estudos (a começar logo pelo primeiro), seria possível separar o mais precocemente possível os meninos "capazes", destinados às vias nobres de prosseguimento de estudos, dos meninos "incapazes", encaminhados, via cursos ditos vocacionais, para o fado do trabalho desqualificado - ou, mais provavelmente, para o desemprego. Transformada em política, esta ideia coloca Portugal em contramão face aos países desenvolvidos. De passagem, destrói uma das melhores realizações do nosso sistema educativo (aliás, da responsabilidade inicial de um governo do PSD), que é o ensino profissional.

Crato destruiu o programa de modernização escolar (quer física, quer tecnológica). Destruiu o programa Magalhães. Destruiu as Novas Oportunidades. Destruiu a avaliação de professores. Destruiu o Inglês no 1.0º Ciclo. Está a destruir o sistema científico. Está a destruir o ensino profissional. E o que oferece em alternativa é o nada absoluto, ou vagas promessas, ou coisas totalmente absurdas.

Veja-se o caso do Ensino Superior. Rompida a relação de confiança com as instituições, o Governo ficou incapaz de atacar o problema principal, que é reordenar a rede de estabelecimentos. Entretanto, semeia a confusão na fileira profissional e politécnica, com o lançamento de uma coisa sem nexo nem sentido, a que chama cursos técnicos superiores profissionais - mas poderia chamar cursos profissionais superiores técnicos, ou superiores técnicos profissionais, ou superiores profissionais técnicos, que a incongruência seria igual.

Veja-se o caso da ciência. O sistema tão laboriosamente construído é amputado a sangue-frio. Aquilo que devia ser uma orientação política de primeira grandeza - promover o português como língua internacional de conhecimento - serve de critério para eliminar centros e projetos. A avaliação é substituída pela mais completa arbitrariedade. O conhecimento crítico é perseguido.

Agora, pela calada da noite, o salteador interpela os professores contratados. Mas nem sequer sabe o que fazer com o assalto. A única coisa que parece movê-lo é o instinto do sádico, cujo prazer é magoar e destruir.

POR AUGUSTO SANTOS SILVA, SOCIÓLOGO, PROFESSOR DA FACULDADE DE, ECONOMIA DO PORTO
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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Os 12 erros mais comuns


Debitar uma resposta memorizada, em vez de apostar na capacidade de pensar pela própria cabeça, não é uma boa solução.

Peça-se num exame que os alunos identifiquem com um "v" de "verdadeiro" as afirmações, entre várias apresentadas numa lista, que sustentem uma determinada hipótese. E é quase certo que vários identificarão com um "v" todas as afirmações que consideram verdadeiras - independentemente de apoiarem ou não a hipótese apresentada. E assim se falha uma resposta. O exemplo serve para ilustrar um dos erros frequentes dos estudantes quando fazem exames: não lêem a pergunta até ao fim. Ganham minutos, mas perdem pontos.

A duas semanas de começarem os exames nacionais do básico e do secundário, pedimos a professores de diferentes áreas que nos ajudassem a fazer uma lista de erros frequentes. Alguns são fáceis de adivinhar. Outros, mais surpreendentes. Há quem aconselhe umas boas horas de desporto vigoroso na véspera da prova.

1. Não estudar com tempo
É bom que cada um encontre a sua própria forma de optimizar o tempo de estudo e de ser eficaz, nota José Morgado, professor do Instituto Superior de Psicologia Aplicada. Mas a verdade é que o tempo que os alunos dedicam a preparar-se para as provas é, muitas vezes, insuficiente.

"Uma parte significativa não se prepara com a antecedência devida", diz Miguel Barros, vice-presidente da Associação de Professores de História (APH). Muitos deixam para a véspera das provas o estudo das matérias obrigatórias, continua Paula Gonçalves, professora de Filosofia e coordenadora do centro de explicações Ás de Saber. "Revelam um estudo pouco sistemático, mal organizado, sem a elaboração prévia de resumos, os quais, quando realizados ao longo do ano lectivo, simplificam muito a preparação mais específica e intensiva que antecede os exames", afirma.

O local de estudo também pode fazer a diferença. Miguel Barros nota que "muitos alunos não estudam em ambientes propícios à concentração - não desligam a televisão, a Internet ou os telemóveis, por exemplo".

2. Stress a mais
"Quando iniciam o estudo, é frequente entrarem em pânico face à enormidade da tarefa, o que os leva a situações de stress e, no limite, ao uso de fármacos que, supostamente, os auxiliarão a concluir com sucesso o que se pretende", diz o dirigente da APH. Eis outro erro frequente. José Morgado sublinha a importância de se tentar "lidar de forma serena com a pressão ou expectativas que, muitas vezes, pais, professores ou os próprios colocam - e que, para alguns alunos, podem tornar-se parte do problema". 

À medida que o exame se aproxima, os nervos aumentam. E, no dia da prova, ainda pior - sendo que, tendencialmente, os mais pequeninos são mais sensíveis, explica Fernando Nunes, ex-presidente da Associação de Professores de Matemática.

O excesso de tensão, diz este professor, é um grande inimigo. Leva os alunos a cometer erros, sobretudo se no exame se confrontam com algo "novo", uma pergunta feita de forma diferente daquela que é habitual, por exemplo. O último relatório disponível do Gabinete de Avaliação Educacional, sobre os exames, confirma esta ideia: em 2011, nos exames de Matemática do 9.º e do 12.º ano, por exemplo, os alunos revelaram dificuldades na interpretação de algumas questões, sobretudo quando estas envolviam "estratégias não habituais".

3. Ter excesso de confiança
Muitos alunos consideram que não precisam de fazer uma preparação "mais específica e direccionada" para os exames porque julgam que já conhecem a matéria, diz Paula Gonçalves. Acham, portanto, que não precisam de praticar. Mas atenção ao excesso de confiança: "A realização contínua de exercícios permite fazer um levantamento dos próprios erros procurando superá-los e, além disso, obriga a analisar os critérios de correcção dos exames procurando responder à questão "em que é que eu não posso falhar?"."

4. Ler só resumos
Cada vez mais se nota que os alunos não lêem as obras integrais que são obrigatórias, notam alguns professores. Isto vale, nomeadamente, para quem está a preparar-se para o exame de Português. Os resumos das obras não chegam!

5. Ir de directa
Ir para o exame com uma noite mal dormida é um erro frequente. "Metade da nota consegue-se com estudo, a outra metade com os neurónios em actividade máxima... o que implica uma cabeça fresca!", diz Paula Canha, professora de Biologia e Geologia. "Aconselho os meus alunos a praticarem desporto vigoroso no final do dia anterior ao exame, pelo menos oito horas de sono e uma refeição decente antes do exame. Assim, a concentração e a capacidade de raciocínio estarão no seu máximo."

6. Não ler as perguntas
Até que chega aquele momento em que o professor distribui o exame. "Às vezes nem lêem o enunciado completo!" O desabafo é de Paula Canha, mas é partilhado por vários professores. "Dizem que a meio já achavam que tinham percebido o que era para responder, mas afinal... Exemplo: uma pergunta de V/F [Verdadeiro/Falso] em que é para indicar as afirmações que apoiam uma determinada hipótese. Eles partem do princípio que é para assinalar as frases como verdadeiras ou falsas, ignorando o segundo requisito do enunciado", continua a professora de Biologia.

Não dedicar o tempo necessário à leitura das perguntas leva a erros de interpretação, diz também Miguel Barros. Sem compreender bem o que é pedido, dificilmente se dá a resposta certa, e isto é verdade para todas as disciplinas, diz Paula Gonçalves.

7. Não planear as respostas
Para além de compreender as perguntas é preciso "preparar e planear as respostas", diz José Morgado. "A resposta imediata pode ser desajustada ou "ao lado"." É importante avaliar o que é mesmo "essencial", referir e o que é "acessório" - sendo que o acessório também se pode incluir, e até pode ser relevante, em questões de "desenvolvimento".

8. Debitar o que se decorou
"Muitos alunos desenvolvem na sua cabeça a resposta certa, mas como não confiam na sua capacidade de raciocínio, preferem procurar na memória alguma coisa que tenham ouvido na aula ou estudado no manual e que possa colar-se àquela situação", diz Paula Canha. Miguel Barros dá o exemplo do que se passa na sua área científica: "Apesar de nos exames de História se privilegiar a interpretação de fontes, devendo a informação recolhida nessas fontes ser integrada, de forma crítica, nas respostas, um número significativo de alunos continua a achar que o que interessa é "decorar a matéria" e "despejá-la" nas respostas. Isto dá origem a erros de análise - vêem nas questões aquilo que querem ver, dando origem a respostas longas mas que ficam muito aquém daquilo que se pretende."

9. Não ser assertivo
Ser objectivo e assertivo dá pontos, diz Paula Gonçalves. "Muitos alunos têm tendência para o excesso de informação numa resposta, tornando-a pouco assertiva. A objectividade é muito bem cotada num exame."

10. Não gerir o tempo
O exame deve ser visto como um todo, diz Miguel Barros. Mas a maioria dos alunos não é assim que lida com o enunciado da prova. "Como não olham para o exame como um todo, mas antes como uma lista de questões, não planeiam com cuidado o tempo de que vão necessitar. Perdem, frequentemente, demasiado tempo com questões de nível mais elementar (do tipo refere, enumera...), que são menos pontuadas, acabando por não ter tempo suficiente para responder a questões mais complexas, que implicam uma maior reflexão."

Mas isto de gerir o tempo não é coisa fácil. Ficar "bloqueado" numa resposta que parece supercomplicada também pode acabar por significar que não se tem tempo para responder a outras eventualmente mais fáceis, lembra José Morgado.

Fernando Nunes lembra que o "tempo" não é, geralmente, um factor muito valorizado no processo de ensino-aprendizagem - mais cinco minutos, menos cinco minutos, o que interessa aos professores na sala de aula é que os jovens acabem por conseguir resolver o problema. No exame, tudo é diferente. Fica a sugestão: "Se acham que estão a levar demasiado tempo com uma pergunta que não estão a conseguir responder, passem para outra, porque elas não têm todas o mesmo grau de dificuldade."

11. Não rever as respostas
É fundamental voltar a reler as respostas do exame para perceber se existe coerência no que foi exposto e poder detectar erros e falhas.

12. Não usar as tabelas
Textos, tabelas, gráficos e exemplos não servem para embelezar o exame, diz Paula Gonçalves. Muitos alunos ignoram o recurso a estes documentos de apoio que constam de alguns enunciados e que muito podem valorizar uma resposta.

Notícia retirada daqui

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

O que é que os alunos de 20 valores têm para ensinar aos outros?


São quatro jovens com percursos muito diferentes mas com algo a uni-las: no ano passado, distinguiram-se como as alunas com as melhores notas a Português, Matemática, História e Biologia nos exames nacionais do secundário. Chegaram lá com esforço, muito, mas também seguindo estratégias que não se importam de partilhar. A uma semana da nova época de exames, o que têm a Inês, a Joana, a Leonor e a Ana a ensinar-nos?

Inês Maia, 20 a Português
"Dormia sempre as minhas oito horinhas por dia"
Não tem aspecto de ser um ratinho de biblioteca. Se dúvidas houvesse, a página de Inês Maia no Facebook comprova que a sua vida social está bem e recomenda-se. Canta, vai à praia e, mais do que isso, em 2011, no mesmo ano em que se destacou por ter tido a melhor nota no exame de Português do 12.º ano, lançou um livro de ficção, Desafio Celestial (Editorial Presença).

Nenhuma das suas actividades a impediu de ser boa aluna porque o segredo, adianta, não é estudar horas a fio. "O essencial é estarmos atentos nas aulas." Quem já não for a tempo, pode, mesmo assim, socorrer-se de alguns truques.

"No que toca à gramática, é preciso decorar algumas regras, para chegarmos ao exame e não haver dúvida possível; no resto, não aconselho nada: o objectivo é mesmo compreender o que se lê sem pretensões de copiar e colar no exame aquilo que se ouviu nas aulas ou se leu nos manuais", debita esta rapariga de 19 anos, agora estudante na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.

Postas de parte as mnemónicas e truques afins, Inês Maia sustenta que outro dos segredos é manter uma atitude positiva relativamente ao que se está a estudar. "Se pensarmos que aquilo até pode ter um lado divertido e interessante, torna-se muito mais fácil. Quando tinha uma parte da matéria de que gostava menos e me sentia mais negativa, custava-me sempre mais decorar e perceber." Mesmo nas alturas dos exames, Inês nunca alinhou em directas nem em estimulantes. "Dormia sempre as minhas oito horinhas por dia. E nunca fui de sair à noite, o que fazia era pôr a televisão de lado e pôr o computador de lado, mas tudo isto sem exageros, para não entrar em depressão profunda." Em período de exames, as horas das refeições mantiveram-se sagradas e o único desvio à norma eram os chocolates ingeridos aqui e ali, "para aguentar mais duas horas de estudo".

Minutos antes de ter o enunciado na mão, Inês desligava. "Ficava uns minutos em meditação. Entrava na sala, não falava com ninguém nem ouvia o que as pessoas estavam a dizer para não aumentar a ansiedade e não pensava na matéria." E, na dúvida sobre a resposta correcta, Inês diz que aprendeu da pior maneira que, em regra, a primeira resposta, a que saiu de modo mais intuitivo, é a acertada.

"Não vale a pena aproveitar-se a tolerância de 30 minutos para mudar tudo aquilo que estava certo." Está feito o aviso.

Joana Dias, 20 a Matemática
Muita planificação e um quadradinho de chocolate
Directas, café e exercícios até ao último minuto? Para Joana Dias, de 18 anos, os exames nacionais do ano passado foram tudo menos isso. Preferiu trocar esta fórmula por um planeamento ao pormenor das provas finais do 12.º ano. Joana, então aluna do Externato Marista de Lisboa, foi a exame de Matemática com uma classificação interna de 20 valores que queria manter. Conseguiu. Na pauta final, a repetição do 20 colocou-a entre os melhores alunos do país numa disciplina que continua a ser o calcanhar de Aquiles de muitos.

Joana, agora a terminar o primeiro ano de Medicina na Universidade Nova de Lisboa, defende que "as aulas são muito importantes" e aconselha a não menosprezar os trabalhos de casa. Começava por perceber a parte da matéria mais básica e só então avançava para exercícios complexos.

"Estudava sempre no mesmo sítio. Se quisesse descansar, comer ou fazer outra coisa qualquer, então ia para outro sítio." Organização e planeamento foram a chave. Tinha vários livros de exercícios, depois "fazia apontamentos escritos como se fosse o meu próprio livro de fórmulas", explica. Estudar em voz alta e utilizar um quadro onde podia apagar e recomeçar foram outros truques. Joana aconselha que o estudo seja muito semelhante ao exame: "Numa fase em que já se sabe toda a matéria teórica, é só ter à frente o exercício." Diz que um calendário ajuda muito.

"Fazia um plano de estudos para cada dia." Quanto a decorar, preferia perceber as fórmulas.

E foi assim que conseguiu evitar noitadas. "Não bebia café até chegar à faculdade e mesmo agora quase nunca bebo." Quanto à alimentação, fazia as refeições normais e tentava comer mais fruta e beber água para compensar o estudo em voz alta. Em períodos mais exigentes, recorreu a suplementos vitamínicos. Garante que sobrou tempo para os amigos: "O estudo é tão intenso que, se não existirem formas de desanuviarmos e de limpar a mente, é impossível mantermo-nos concentrados".

Quanto a superstições, só não abdicava de um quadradinho de chocolate antes de cada prova. "Nunca estudei consumida pela vontade de ter um 20." Joana lembra que o exame é apenas um dia: "É respirar fundo e entrar, porque o que podia ser feito já foi feito. É muito importante controlar a ansiedade, porque existe uma diferença entre o que um aluno sabe e o que o aluno demonstra em tempo de exame".

Leonor Santos, 20 a História
Saber é tratar a matéria por tu (de preferência em voz alta)
Quem não se aplicou ao longo do ano fará melhor em ficar longe de Leonor Santos, se quiser entrar na sala de exame com uma réstia de esperança.

Com ela, não há paninhos quentes: a quem estuda por obrigação, diz que mais vale não o fazer; aos que são preguiçosos, sugere que mudem de hábitos; e nem a uns nem a outros serve um pingo de alento.

Parece severa - e é. Mas só nas palavras. Leonor, agora a acabar o primeiro ano de Jornalismo, diz isto tudo com um sorriso malandro no rosto de menina - "Já tem 19 anos? Não pode ser!" - e com um desembaraço alegre na voz, que é próprio de quem se sabe com jeito para enfrentar as câmaras, se um dia vier a trabalhar na TV.

É mesmo assim, focada no que está a enfrentar; e também é metódica e aplicada - a isso não se pode chamar um truque. Pode? Vamos ao melhor exemplo. Há que saber História? Pois, então, um manual não chega.

Se um explica umas coisas, outro fala de outras. E depois há os apontamentos das aulas e os textos que a professora entregou e mais uma ou outra informação da Net. Tudo lido, cruzado, pensado, assimilado e finalmente vertido num caderno, que passa a ser o único material de trabalho. Fez isto tema a tema, com os quais ia criando intimidade até que, nas vésperas dos testes, já só faltava tratar a matéria por tu. Literalmente.

Diz, depois de pensar bem, que essa é a coisa mais estranha que faz: estudar em voz alta. Fala muito, fechada no quarto, sozinha e sempre depois de uma noite bem dormida e a horas decentes (durante a manhã e ao fim da tarde), o que dispensa vitaminas e estimulantes, mas exige vários litros de água e muito gosto pelo que está a aprender.

No dia do exame, basta-lhe ouvir-se de novo. Mal lhe entregam a prova, lê o enunciado de fio a pavio. Com a cabeça ainda fresca, segue o que a voz lhe dita, rabiscando na folha de rascunho o que não pode escapar na resposta. E, assim, quando chega ao fim da primeira leitura, o mais difícil está feito: "A seguir, é só escrever".

Parece aborrecido? Leonor garante que não é. Gosta de estudar e sempre lhe sobrou tempo para tudo.

Reconhece, ainda assim, que ter crescido na pacata cidade de Oliveira do Hospital foi uma vantagem. Agora, em Coimbra, o desafio é maior - na Queima das Fitas, por exemplo, já se estreou nas directas que nunca fez a estudar. Mas nada que a demova da ideia de que "há tempo para tudo".

"Basta querer, não é?"

Ana Marta Nunes, 20 a Biologia
"O mais importante é estar com atenção nas aulas"
Ana Marta Nunes não gosta de sair à noite e não bebe café nem álcool. De quando em vez, vai ao cinema, mas os tempos livres desta aluna de Faro à beira de fazer 18 anos são sobretudo passados ao computador, ligada ao mundo das redes sociais, onde já aprendeu a falar japonês.

Ana considera-se uma rapariga "normal" e ela, que no ano passado teve 20 a Biologia no exame nacional do 11.º, até tem uma receita aparentemente simples para o sucesso escolar: "O mais importante é estar interessada e com atenção nas aulas". É essa a regra que tem seguido desde sempre e a verdade é que nunca se deu mal, porque quando a pessoa estuda só para o teste, o mais provável é que se "esqueça pouco tempo depois".

Teve de se aplicar a fundo a Biologia, uma disciplina "mais chata" e que lhe exigiu mais esforço, onde o que conta "não é tanto o raciocínio mas mais a informação". Já a Inglês ou a Português quase não teve de estudar para tirar a nota máxima também a estas duas disciplinas.

A quem lhe pedir conselhos para ser bom aluno, Ana não hesita: "Estudar para saber e não estudar só para o teste e esquecer a seguir". O seu estudo é metódico e obedece a regras, diz, mas isso não significa que passe a vida agarrada aos livros. E nem sequer precisa de outros truques mais ou menos sofisticados para exercitar os neurónios.

Por regra, estuda ao final da tarde e a seguir liga-se ao mundo através do computador, onde procura outros jovens para "saber mais sobre a cultura de outros países". A animação japonesa (Anime) é uma paixão. "Até já aprendi a falar japonês, pequenos diálogos." A outra é o básquete, que joga nos tempos livres e em que o pai é um "adversário a ter em conta".

O seu futuro imediato passa por seguir Engenharia Física Tecnológica no Instituto Superior Técnico, em Lisboa, ou Engenharia Informática no Porto. Mas o seu sonho mesmo é ser investigadora no maior laboratório de física de partículas do mundo - o Centro Europeu de Pesquisa Nuclear (CERN), na Suíça - e, para isso, está já a preparar a candidatura a uma bolsa de estudo. O "bichinho" tocou-lhe quando a Universidade do Algarve, no âmbito de uma iniciativa destinada aos três melhores alunos de Física do 10.º ano, lhe proporcionou uma conversa por videoconferência com cientistas do CERN. "Foi mesmo muito bom."

Notícia retirada daqui

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Vinte conselhos para ser bom professor


Inspirado em grandes professores do passado, mas sem esquecer a ligação dos alunos do presente com as novas tecnologias, Jorge Rio Cardoso escreveu o livro ‘O Professor do Futuro', que deixa algumas dicas aos docentes para melhorarem as suas aulas.
Nem todos os professores têm o dom de captar a atenção dos alunos nas aulas e de lhes mostrar o que fazer com o conhecimento que adquirem. O professor universitário Jorge Rio Cardoso foi buscar inspiração a professores do passado, aliou-se a nomes do presente, como Marcelo Rebelo de Sousa, professor catedrático na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, e escreveu o livro ‘O Professor do Futuro' para dar alguns conselhos a quem trabalha a escola em Portugal.
Apesar de deixar dicas aos seus colegas de trabalho, Jorge Rio Cardoso não se considera um bom professor. "Ninguém se pode considerar bom em nada, isso é o fim de tudo, mas tento melhorar todos os dias. Deve haver uma insatisfação em toda a gente no sentido de poder melhorar", explicou o professor universitário.
Na opinião de Jorge Rio Cardoso, um bom professor tem de "ver as diferenças entre os alunos e levá-los a entendê-las e respeitá-las". Mesmo com a situação de instabilidade que muitos professores atravessam em Portugal, o docente não têm dúvidas de que ainda há motivação entre os professores. "A maioria dos que abraçam a profissão para toda a vida têm dado provas disso", acrescentou.
Na obra ‘O Professor do Futuro', Jorge Rio Cardoso e outros professores do País deixam alguns conselhos para melhorar as formas de transmitir conhecimento.

Retirada do Correio da Manhã
Por:Cátia Carmo

domingo, 10 de março de 2013

Dormirei, boas novas acharei


Os problemas de comportamento e de falta de concentração de muitos estudantes encontrariam resolução (pelo menos em boa parte) com uma boa higiene do sono.

Dizia-me há pouco tempo uma menina de 11 anos, excelente aluna e com uma motivação incomum para se envolver em todos os desafios que lhe surgem, desde os académicos até aos sociais e aos lúdicos: "Porque tenho que dormir? Que perda de tempo. Tantas coisas interessantes que tenho para fazer!". Confesso que houve tempos em que me identifiquei com este pensamento, mas o peso da experiência acumulada com a idade já me faz sentir no corpo que "O dormir é meio sustento" (ou mais do que meio!). Poderia, a estes provérbios, acrescentar uma ideia que o meu corpo me obriga a reconhecer como verdadeira: "Não dormir é um autêntico veneno." Há muitas pessoas a quem o corpo não fala tão claramente, e lá se vão elas deixando seduzir por ocupações noturnas como programas de televisão, jogos no computador ou saídas até tarde, acreditando que dormir é desperdício de tempo. E como "O uso adquirido, sono perdido", lá se vai o hábito de "Deitar cedo e cedo erguer [que] dá saúde e faz crescer." No meio de tantos provérbios, onde está afinal a verdade?

Nas nossas salas de aula, vemos com alguma frequência alunos que cabeceiam ou então chegam mesmo a adormecer. Vemos outros que têm dificuldade em manter a atenção ou então se mexem constantemente na cadeira. Se o sono indicia claramente uma noite mal dormida (ou mais), já a irrequietude ou a dificuldade de concentração podem ter muitas causas, mas uma delas é o não se ter dormido o suficiente. O que acontece com um bebé quando não dorme? Fica rabugento e ninguém tem dúvidas das razões dessa impertinência. E quando não dormimos, não sabemos perfeitamente que ficamos mais irritadiços, com menos paciência, menos tolerantes, com mais dificuldade para nos concentrarmos, com tendência para fazermos leituras mais "negras" dos problemas? O mesmo acontece com as crianças e os jovens. Torna-se difícil estar com atenção nas aulas; o corpo começa a pedir movimento e a torcer-se na cadeira; a piada que um colega diz é interpretada como um insulto e paga com um estalo bem dado, ao qual ele responde com um murro, a que se pode seguir uma luta a sério.

Vistas as coisas assim, percebe-se que "não dormir, é um veneno". E daí até podermos convencer-nos de que "Dormirei, boas novas acharei."? Como posso ajudar a minha amiguinha a compreender que o tempo passado a dormir não é desperdiçado?

Dormir o suficiente é fundamental para a aprendizagem de coisas novas e para reforçar a memória. Quando aprendemos algo, a informação é retida na memória de curto prazo. Esta precisa de ser consolidada, processo que se prolonga enquanto dormimos, levando a um aumento da memória. Durante o sono também relacionamos informações que estão dispersas e conseguimos encontrar ideias criativas, por exemplo, para resolver problemas. Quem é que ainda não teve a experiência de acordar com uma ideia genial para resolver um problema para o qual, até aí, não tinha conseguido encontrar solução? Estas são algumas das "boas novas" que poderemos achar com um sono repousado. Mas as "boas novas" não vêm só da possibilidade de termos ideias criativas. É também uma "boa nova" a descoberta de se conseguir ter uma melhor concentração nas aulas e de as explicações e atividades aí surgidas começarem a fazer sentido mais rapidamente, tornando-se mais interessantes. Os problemas de comportamento e de falta de concentração de muitos estudantes encontrariam resolução (pelo menos em boa parte) com uma boa higiene do sono (cumprimentos de regras de sono adequadas).

"Boas novas" resultam também da recuperação do equilíbrio necessário para lidarmos com as emoções e memórias, particularmente com as negativas. Com efeito, a falta de sono contribui para uma maior irritabilidade e para uma maior dificuldade de autocontrolo. Depois de se ter dormido bem, a tal piada dita pelo colega, embora possa não ser muito engraçada e até um pouco infeliz, pode receber o desconto que merece ou ter uma resposta mais ajustada do que um estalo. Ignorar o que se ouviu, responder assertivamente "Não achei graça ao que disseste." são duas possibilidades. E, desta forma, se torna mais fácil adquirir competências de relacionamento interpessoal e evitar situações de conflito. Uma vez mais, alguns problemas de disciplina deixariam de existir e o relacionamento entre as crianças poderia melhorar. Ressalvo que a falta de um sono reparador não é a única justificação e dormir bem não é uma solução milagrosa; é, contudo, um fator a considerar.

E para quem acha que "não consegue adormecer cedo", será boa ideia analisar as rotinas que antecedem a hora de deitar. É frequente as crianças e os jovens resistirem a ir para a cama. A televisão e o computador no quarto em nada ajudam, pois torna-se difícil aos pais conseguirem efetuar uma vigilância eficaz. O que fazem muitas das crianças/jovens renitentes em ir para a cama à hora devida? Normalmente navegam na net, jogam videojogos ou veem televisão. Claro que, com estas tentações, não há sono que se aproxime. Só a firmeza dos pais na negociação e aplicação de rotinas saudáveis pode "curar" esta falta de sono. É indispensável ser definida e estabelecida uma rotina com uma hora de deitar adequada, à qual se antecede um período em que o computador e a televisão já estão desligados e são praticadas atividades relaxantes, como, por exemplo, ler, conversar um pouco ou tomar banho.

"A quem dorme descansado, dorme-lhe o cuidado." Torna-se, com efeito, mais fácil ver os problemas com uns óculos mas mais otimistas (embora não irrealistas) e mais capazes de analisar as situações pelo lado positivo, facilitando a procura de soluções. Nesse sentido se diz também que "O sono é bom conselheiro:" Por fim, relembro o provérbio com que comecei: "Dormirei, boas novas acharei." Enquanto dormimos, aprendemos, descansamos e preparamos o nosso corpo e o nosso espírito para um novo dia.
Nem sempre é tarefa fácil para os pais, com o difícil quotidiano dos dias de hoje, encontrarem horários que permitam a conciliação do convívio familiar e do cumprimento das tarefas do fim do dia com a instituição e manutenção do hábito de as crianças se deitarem cedo. Se elas perceberem que dormir não é desperdício de tempo, poderão ser mais colaborantes. A negociação das regras pode ajudar. No entanto, a firmeza dos pais na sua aplicação não pode ser dispensada. "O sono é bom conselheiro." O bom senso, a coerência, a persistência e a assertividade também são.


Armanda Zenhas/Educare
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